14 de fev de 2010

Hannah Arendt e "A crise na educação"....

Hannah Arendt foi uma pensadora do século XX cuja obra trata sobretudo de filosofia política. Em importante livro seu, Entre o passado e o futuro, a autora reflete sobre a educação em um capítulo intitulado “A crise na educação”. Mas de qual crise se trata? Para responder, é necessário definir o que é a educação, compreender a essência da educação. Arendt nos diz que “a essência da educação é a natalidade, o fato de que seres nascem para o mundo”. Nesse sentido, a educação existe em virtude de a criança ser uma aparição no mundo, em virtude de a criança ser um estrangeiro em um mundo estranho que já existia antes de sua chegada. Esse novo ser, por conseqüência, precisa ser introduzida nesse mundo estranho, tarefa que somente pode ser cumprida pela educação.
O conceito que começa a se constituir aqui é o de responsabilidade. Aos educadores cabe uma dupla responsabilidade: pelas crianças e pelo mundo. Responsabilidade pelas crianças na medida em que se não forem introduzidas em um mundo, com uma tradição, com valores, regras, padrões de comportamento, elas estarão jogadas à própria sorte, exiladas na própria pátria (desoladas, sem solo). Já a responsabilidade pelo mundo se dá porque ele precisa ter continuidade, precisa ser preservado, após a mortalidade individual de cada um de nós. Quem dará continuidade ao mundo senão as gerações vindouras?
A crise na educação, dessa forma, tem origem em causas gerais que transcendem os limites da educação. Não se trata de uma crise particular de um país ou outro, com causas igualmente particulares. Em termos precisos, as causas de uma crise na educação se encontram na crise do mundo moderno. A leitura de Arendt da modernidade é dramática. Nesse período histórico se dá a bancarrota da esfera pública consoante à constituição da sociedade de massa. A sociedade moderna rejeita qualquer separação entre o público e o privado.
Arendt entende por esfera pública o mundo comum no qual todos podem ser vistos e ouvidos pelos seus atos e feitos e palavras. É a única esfera na qual o homem pode realizar-se como ser humano, como animal político, distinguindo-se dos outros animais, que somente se ocupam com necessidades de sobrevivência, com questões particulares. Desse jeito, quando os indivíduos de uma sociedade são massificados, quando a singularidade de cada um expressa pelos seus atos e feitos públicos é não mais forma de excelência de existência humana, dá-se a bancarrota da esfera pública e a glorificação da esfera privada. Indivíduos que somente se ocupam com questões particulares são seres que ao modo de animais apenas cuidam de suas necessidades de sobrevivência.
Essa crise da modernidade fundamenta a crise na educação. Ora, a educação, cuja essência é “a natalidade, o fato de que seres nascem para o mundo”, fracassa quando é desenvolvida na ausência de uma esfera pública à qual a criança deveria ser gradativamente introduzida. Quando outrora dissemos que a educação tem o propósito de introduzir a criança em um mundo pré-existente, estávamos tacitamente dizendo que a educação deve preparar a criança para abandonar a esfera privada, a esfera familiar, e adentrar a esfera pública, onde o mundo humano é construído e preservado.
Isso não significa que não haja saída, que a educação não pode mais cumprir sua função de introduzir os novos no mundo. Ao contrário, a educação se torna tanto mais fundamental na sociedade e tarefa igualmente mais árdua para pais e professores. Afinal, a despeito de inexistir uma esfera pública que anuncie a responsabilidade deles com o mundo e a criança, que deverá preservá-lo amanhã, ainda assim pais e professores devem assumir a responsabilidade se entenderem que “a educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos e dos jovens”.

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