3 de mai de 2010

A FÓRMULA "DIVERTIDO-LÚDICO-PEDAGÓGICO"...

Uma das ideias "pseudo-pedagógicas" mais vulgares nos documentos curriculares vigentes, nos discursos de muitos teóricos e investigadores (onde me incluo), de professores (onde também me incluo), e na opinião do público, em geral, é que o "divertido", o "lúdico" deve ser constantemente chamado à sala de aula, para, assim, se envolverem os alunos na aprendizagem, os interessar, os"motivar". Também se argumenta que isso contribui para o seu bom comportamento.
Acresce que essa chamada deve ser feita de tal modo que os alunos, divertindo-se, não percebam que estão a aprender conteúdos disciplinares (esta ideia é muito antiga e tem autor, pelo que, em texto posterior, a explicarei melhor), nem que se estão a comportar como devem.
Os conteúdos disciplinares são, assim, introduzidos subliminarmente, quase à má-fé (na expressão de um colega de profissão, autor do texto que cito a seguir), na crença (errada, profundamente errada) de que todos os alunos os lhe têm aversão. Está bem de ver que, e pondo a questão de outra maneira, se os alunos rejeitam aprender e/ou se têm um comportamento desadequado é porque o professor não usou a fórmula “divertido-lúdico-pedagógico".
"Os adultos responsáveis pelo sistema educativo (…) fazem prodigiosos esforços por tornar «divertido» e «lúdico» aquilo que o não é e que não tem de o ser.
Esforçam-se por isso e demonstram que a ciência é divertida, que a gramática pode ser divertida e que, se a divisão de orações não é divertida, pode acabar-se com ela. Os adultos parecem apavorar-se com a possibilidade de os alunos não gostarem de uma matéria ou de uma unidade curricular, quando a verdade é que muitas dessas unidades só podem ser apreciadas por um número restrito de sujeitos. Os restantes poderão realizá-la, ou não, mas sem gosto ou até mesmo a contra-gosto, não sendo isso um drama nem um problema. De facto, há múltiplas actividades, tarefas, exercícios, ao longo do percurso escolar, que não só muito dificilmente serão realizados com gosto e ainda assim por muito poucos.
Os esforços para tornar a escola divertida têm com grande probabilidade efeitos contra-producentes quanto aos resultados académicos e relativamente ao papel que os alunos esperam para a escola e para si próprios enquanto alunos. Por um lado, nada indica que os resultados tenham vindo a melhorar com esse esforço (…) e por outro deterioram a imagem da escola aos olhos dos alunos e levam-nos a apresentar comportamentos que não são de esperar naquele contexto, embora o pudessem ser em contextos de diversão ou de tempos livres."
Referência:
Lopes, J. (2008). Ciência e crença na gestão de sala de aula. Coimbra: Quarteto, páginas 63-64.
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