7 de mar de 2011

O AÇÚCAR DA PRIMEIRA FLOR...



Crónica publicada no "O Despertar".

Os cristais de açúcar espalhados sobre a mesa, ali lançados por um distraído gesto adocicante, são iluminados pela luz da tarde. A refracção e reflexão dos raios solares que os atravessam emprestam mais cor à visão da natureza em vésperas primaveris. Um insecto, voo inebriado de néctar colhido numa das primeiras flores, poisa no pires e não resiste em completar a sua recolha com umas moles de açúcar.

Com o aumento da luminosidade diária, as plantas recuperam outros ritmos metabólicos. Suavizados os rigores invernais, o fluxo de nutrientes aumenta entre as raízes e os ramos nus. Aqui e acolá, brotam folhas incipientes em resposta ao aumento da exposição solar, futuras e eficientes centrais de síntese orgânica que, a partir da energia da radiação electromagnética na gama da luz visível, reorganizam as ligações entre átomos de carbono (C), oxigénio (O) e hidrogénio (H) provenientes do dióxido de carbono (CO2) e da água (H2O), no processo conhecido por fotossíntese.

Os produtos, hidratos de carbono com a formula química empírica (CH2O)n – n maior do que três –, são das biomoléculas mais abundantes na natureza. Possuem diversas funções nos seres vivos sendo a função energética através da oxidação da glicose talvez a mais conhecida.

Alguns açúcares armazenados nas raízes das plantas impedem que estas gelem no solo sob o rigor invernal. São anticongelantes naturais. Garantem deste modo que a planta, árvore, sobreviva para além do frio.

Os carbohidratos, outra designação pela qual são conhecidos, são peças de construção de várias estruturas como seja a parede celular de bactérias, fungos e células vegetais. A celulose, uma matrix dos tecidos vegetais, é um polímero natural de glicose.

Carbohidratos como a desoxirribose e a ribose são blocos estruturantes da helicoidade dos ácidos genéticos (ADN, ARN).

Associados a proteínas (glicoproteínas) os hidratos de carbono funcionalizam diversas tarefas de sinalização intra e extracelular. Muitas hormonas animais (e.g., TSH) são por elas formadas.

Diversas glicoproteinas determinam, na superfície dos glóbulos vermelhos, os diferentes grupos sanguíneos. Aliás, é o elevado número de combinações diferentes que proporcionam, que marca, com identificação própria, as incontáveis células que nos constituem, assim como especificam a nossa identidade única. De facto, a nossa identidade e compatibilidade imunitária inter-indivíduo é muito determinada pela variabilidade glicoproteica.

Sendo parte constituinte da “cola celular” extracelular que mantém as células na apropriada arquitectura tecidular, outras costuras entre carbohidratos e proteínas participam na lubrificação das articulações esqueléticas, permitindo assim a mobilidade articulada que nos alavanca o caminhar de flor em flor, para nos inspirarmos com os seus perfumes e aromas. Estes, constituídos por diversos compostos aromáticos e voláteis, são detectados olfativamente por “antenas moleculares” que contem açúcares na sua composição!

E o pólen, publicitado pelas flores das plantas angiospérmicas, mas anterior a estas, com pelo menos 300 milhões de anos de evolução e adaptação aos desafios da comunicação intra e inter-espécies, transportador de informação ecológica para além da informação genética reprodutiva (masculina!), é constituído maioritariamente por hidratos de carbono com múltiplas funções.

São astronómicas moles de açúcares nos estames da primeira flor.

TEXTO DE :ANTÓNIO PIEDADE

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